No segundo semestre do ano passado, uma pesquisa realizada pela Deloitte nos chamou a atenção por mostrar que o acesso ao mercado de capitais é considerado inacessível para a maioria das empresas com faturamento abaixo de R$1 bilhão no Brasil. E a falta de maturidade é apontada pela consultoria como um dos maiores entraves para encurtar o caminho dessas empresas até chegar ao famoso IPO, que é a primeira oferta pública de ações de uma empresa, ou seja, quando estreia a negociação dos papéis em bolsa de valores.
Como consultores, acompanhamos o desenvolvimento de empresas de médio porte há mais de duas décadas e concordamos com os achados da Deloitte. Esse cenário reforça a importância de consultores especializados em IPOs para médias empresas (MEs).
O papel desses consultores torna-se evidente quando nos permitimos enxergar os obstáculos que empresas de porte menor enfrentam no contexto do mercado de ações. Se empresas de grande porte muitas vezes tropeçam no processo de IPO, imagine então a dificuldade que uma empresa menor pode enfrentar.
Essas empresas muitas vezes encontram-se diante de barreiras econômicas e regulamentações desafiadoras que dificultam o acesso aos canais tradicionais de mercado de capitais. A atuação de consultores especializados e de plataformas alternativas de listagem, inspirados pelos nominated advisors do mercado londrino, surge como uma solução inovadora para esse cenário.
Os especialistas em IPO têm um papel fundamental na orientação das Médias Empresas (MEs) no intrincado processo de abertura de capital. Esse emaranhado inclui a adaptação da estrutura de governança corporativa, a definição do valor da empresa, a auditoria contábil e a análise de possíveis responsabilidades legais e fiscais. Tal preparação não é apenas vital para atender às normas regulatórias, é fundamental para seduzir investidores, porque comprova a viabilidade e a estabilidade da empresa.
Também está no escopo de atuação desses consultores a abertura de portas para as MEs explorarem métodos alternativos de financiamento. Um exemplo é a emissão de ações em formato “tokenizado” por meio da plataforma BEE4, que apresenta uma abordagem mais flexível e com menos exigências regulatórias para arrecadações menores. Esse modelo inovador permite que as MEs obtenham capital necessário para o crescimento de forma análoga a um IPO tradicional, entretanto com barreiras operacionais e financeiras menos desafiadoras, tornando o mercado de capitais mais acessível.
Para se ter uma ideia dos valores envolvidos, as ofertas de capital podem ser de até R$ 100 milhões por ano para empresas com faturamento de até R$ 300 milhões, registrado no ano anterior à data da oferta. O percentual máximo de cash out, ou seja, dinheiro direto para o bolso dos acionistas, é de até 20% do valor levantado em bolsa. À medida que haja mais aderência, esse teto deve subir rapidamente ao longo de dois a três anos, ficando em torno de R$ 200 milhões e R$ 500 milhões por ano, respectivamente, entre tamanho de oferta e de empresa.
A participação de consultores especializados em IPO amplia as opções de financiamento para médias empresas (MEs) e enriquece o mercado de capitais ao introduzir novos participantes e criar um ecossistema financeiro mais inclusivo. A colaboração desses profissionais é essencial para superar barreiras financeiras, favorecendo um mercado mais democrático e estimulando o desenvolvimento e a expansão das MEs no Brasil.
O mercado de capitais torna-se mais eficiente quando aumenta o número de empresas abertas. Essas empresas fomentam o mercado de alocação de investimentos alternativos por parte de investidores, sejam eles institucionais ou não, popularizando estratégias de alocação de recursos que antes eram limitadas a detentores de grandes somas de capital, como os superfundos, com capacidade de avaliação e originação de negócios muito especializada.
Temos um momento-chave para pavimentar o mercado de capitais que queremos apresentar no médio e longo prazo. Um mercado mais democrático e diverso tem mais chances de se desenvolver e garantir uma expansão sustentável. Em tempos de valorização do ESG, a diversidade não pode ficar fora dessa negociação.