Compartilhe com sua comunidades

Quando a segurança vira estratégia de crescimento

A RSA Conference 2025 não foi apenas um encontro técnico em São Francisco. Foi um aviso claro, e sofisticado, de que cibersegurança deixou de ser firewall para se tornar fundamento. De que, em tempos exponenciais, proteger dados é proteger valor. E que as maiores ameaças hoje não gritam. Elas sussurram, infiltradas em linhas de código, na confiança mal colocada em parceiros, nos atalhos que encurtam o compliance.

Sob o tema “Muitas Vozes, Uma Comunidade”, a RSA reuniu mais de 45 mil profissionais e mostrou que a cibersegurança não vive mais na sala da TI. Ela subiu para a mesa do conselho, sentou com o jurídico, entrou no radar de quem define estratégia, e passou a dialogar com investidores.

Entre os painéis, ficou claro que o risco não é mais uma variável técnica, mas um ativo intangível com valor de mercado. A computação quântica, por exemplo, já começa a corroer os pilares da criptografia tradicional. Algoritmos como o de Shor ameaçam decifrar o que antes era inquebrável. O que parecia futuro virou urgência.

O NIST já trabalha para padronizar algoritmos pós-quânticos. E o alerta é direto: quem deixar para reagir depois perderá mais do que dados. Vai perder reputação, liquidez e, talvez, continuidade.

Outro protagonista do evento foi a inteligência artificial. Não a IA marqueteira, mas a IA real, aquela que investiga, corrige, defende e, sim, ataca. Os agentes autônomos, firewalls inteligentes, guardrails de linguagem e rastros em blockchain mostram que a defesa hoje também é criativa. Mas criativo também é o risco: injeção de prompts, engenharia social hiperpersonalizada, cadeias de suprimentos hackeadas por fornecedores invisíveis. No mundo conectado, o elo mais fraco é sempre coletivo.

E por falar em cadeias, a vulnerabilidade não está só nos servidores. Está nos contratos mal gerenciados, nas permissões generosas demais, nos fornecedores não auditados. Um CISO norte-americano resumiu com precisão: “se o vizinho esquece a porta aberta, o risco é seu também”. Em 2024, mais de 35% das violações globais tiveram origem em terceiros. E o número cresce, porque o ecossistema digital não tem muros, ele tem interfaces.

Mas talvez a maior mudança venha da forma como o risco passou a ser falado. Sai o jargão técnico, entra o impacto financeiro. CEOs querem saber quanto custa um incidente. CFOs querem ver o ROI da proteção. E conselhos querem que os riscos venham acompanhados de planos, simulações e, principalmente, KPIs. A segurança virou métrica de ESG, argumento para captação e, em muitos casos, cláusula contratual.

Nos EUA, as vendas de seguros cibernéticos ultrapassaram US$ 10 bilhões. E não é por acaso. Empresas entenderam que, no novo capitalismo digital, o que não é protegido vira passivo. E que prevenir é mais barato, e mais elegante, do que remediar.

A RSA também trouxe à tona o que ainda falta: convergência regulatória. Governos precisam parar de correr atrás da tecnologia e começar a correr junto. A segurança digital precisa ser flexível, colaborativa e, acima de tudo, estratégica. Porque não é mais sobre proteger arquivos. É sobre proteger países, mercados e pessoas.

No fim, a RSA 2025 deixou claro que a cibersegurança não é mais um departamento. É uma cultura. Não é mais barreira. É base. E que o mundo que souber orquestrar tecnologia, regulação e educação não vai apenas evitar ataques. Vai crescer com confiança.

Porque no século 21, segurança é o novo luxo silencioso dos negócios visionários.

Marta Helena Schuh

Director Cyber & Tech Insurance

Informação valiosa, 
no tempo certo

Assine nossa newsletter

Anúncio

Nem as empresas mais disruptivas estão imunes à disrupção. Vejamos o Google, que passou anos organizando o mundo a partir de busca e performance, até ver a OpenAI redefinir a...
Existe uma visão muito limitada sobre retorno sobre investimento no mercado. Muita gente ainda olha para ROI como se ele fosse apenas uma conta de curto prazo. Colocou dinheiro aqui,...
Toda história de estoque encalhado começa com uma aposta razoável. A marca identifica uma tendência, projeta uma demanda, coloca o pedido na produção e espera o mercado confirmar o que...
Pelo segundo ano consecutivo, estive em Austin, capital do Texas, mergulhando no SXSW, festival que mistura tecnologia, cinema, música e comédia e que, há décadas, se posiciona como o “epicentro...
Existem pessoas extremamente competentes, com experiências riquíssimas, mas cujo impacto permanece restrito. E existem outras que conseguem transformar seu conhecimento em algo que ultrapassa a própria trajetória e alcança milhares...
mudado um comportamento, uma rota, uma decisão de compra. E o posto de gasolina me deu esse caso antes de qualquer outro setor. Parecia improvável. O dono de posto opera...