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O Dia em que o Web Voltou ao Ponto Zero

O palco central do Web Summit recebeu um dos painéis mais relevantes deste ano. Lauren Jackson, jornalista do New York Times e autora da coluna Believing, conduziu a conversa com duas figuras que influenciam diretamente a forma como o mundo digital foi construído e como poderá funcionar daqui para frente. Ao seu lado estavam Sir Tim Berners Lee, inventor da World Wide Web, conhecido por abrir mão de fortunas para manter a internet como um bem público, e John Bruce, CEO e cofundador da Inrupt, empresa que desenvolve o Solid, tecnologia criada por Tim no MIT para devolver às pessoas o controle dos seus próprios dados.
A conversa começou com Lauren destacando a importância histórica de Tim. Seu livro This Is for Everyone revela como, no início dos anos 90, ele precisou convencer colegas e chefes de que o web merecia existir. Hoje, ele luta pela segunda grande virada… reformar o web. Para Tim, a visão atual é simples e ambiciosa. Os indivíduos precisam recuperar o poder perdido. Assim como no início, quando qualquer pessoa podia criar um site e se sentir um igual entre iguais. Ele chama isso de soberania digital. Uma internet onde as pessoas voltam a ser donas do próprio espaço, dos próprios vínculos e dos próprios dados.
John Bruce entrou detalhando o Solid. Uma arquitetura que cria o equivalente a um wallet pessoal, um cofre digital onde cada usuário guarda seus dados e decide quem acessa, com que finalidade e por quanto tempo. Nada passa sem permissão. É o oposto dos modelos das grandes plataformas, que se alimentam da concentração de dados para operar seus negócios. Segundo John, o interesse global explodiu nos últimos doze meses. A adoção acelerada de IA colocou governos, bancos, telecoms, empresas de mídia e grandes marcas numa corrida para entender como preservar relevância, relacionamento e privacidade em um mundo onde modelos de linguagem tomam decisões antes do consumidor.
Lauren trouxe a pergunta certa. O reset é possível? Tim respondeu que sim. Não se trata de desligar e religar a internet, mas de reconstruir sua lógica mantendo os valores originais… abertura, neutralidade, simetria. O avanço da IA transformou a forma como as pessoas navegam. Em vez de buscar informações, passam a perguntar a agentes inteligentes que filtram, classificam e recomendam. Nesse cenário, a arquitetura do web precisa acompanhar a mudança. Se não houver mecanismos de proteção, os modelos passarão a conhecer mais sobre nós do que nós mesmos. Tim insiste na ideia de que esta janela é curta. E decisiva.
Lauren avançou para a responsabilidade ética. Como o criador da web lida com os impactos negativos? Tim foi objetivo. Quem inventa algo precisa acompanhar e garantir que esse algo sirva à humanidade. Ele atua nisso através do W3C, da Web Foundation e do trabalho em padrões globais. Mas frisa que a mesma tecnologia pode ser usada para o bem ou para o mal. A ferramenta não define o caráter de quem a usa. Ainda assim, o ponto que mais o preocupa é a ausência de coordenação internacional sobre IA. Diferente da era nuclear, onde cientistas colaboravam em instituições como o CERN, hoje vemos empresas correndo isoladamente para escalar modelos cada vez mais poderosos.
Quando Lauren perguntou se ele ainda acredita no surgimento da superinteligência, Tim respondeu um direto e curto… sim. Para ele, a evolução computacional torna esse caminho inevitável.
John retomou para explicar o impacto disso no mercado digital. Com a ascensão dos modelos de linguagem, o branding tradicional corre risco. Os modelos têm poder crescente para influenciar decisões de compra. Quando o intermediário ganha protagonismo, a marca perde espaço. É por isso que empresas do mundo todo estão procurando formas de estreitar o relacionamento direto com consumidores. Solid e Charlie, o agente pessoal construído pela Inrupt, criam exatamente essa ponte. Não é a empresa pedindo dados. É a empresa sendo autorizada pelo usuário, com confiança, transparência e reciprocidade.
Em seguida, Lauren questionou se os gigantes digitais resistiriam. John foi direto. Os modelos de plataforma estão com os dias contados se não se adaptarem. A intermediação perde força quando agentes inteligentes decidem o caminho. Quem não reconstrói a relação com o usuário corre o risco de virar uma estrutura logística. O futuro exige propósito real, relevância real, relação real.
A conversa terminou com as mensagens para a próxima geração. John lembrou que a responsabilidade está nas mãos de quem estava naquele auditório… empresários, tecnólogos, fundadores, reguladores, todos com poder de decisão real. E Tim fechou com a linha mais importante da noite… construam um web que empodere as pessoas. Tragam de volta o espírito da era em que qualquer pessoa podia criar seu próprio espaço. O futuro do web depende disso.
Saio desse painel com a sensação de que o reset não é um gesto técnico. É um reposicionamento ético. É uma escolha. E ver o próprio criador do web guiando esse movimento de retorno à soberania individual diz muito sobre o tipo de futuro que ainda podemos construir.

Painel central do Web Summit 2025 com John Bruce, cofundador e CEO da Inrupt, Sir Tim Berners Lee, inventor da World Wide Web e cofundador e CTO da Inrupt, e Lauren Jackson, jornalista do The New York Times e apresentadora da coluna Believing… uma conversa sobre soberania digital, o futuro da internet e o impacto da IA na relação entre pessoas, dados e plataformas… Foto de Sam Barnes, Web Summit via Sportsfile.

Marco Marcelino

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no tempo certo

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