Auditar é a arte de comunicar. Poucas pessoas relacionam o perfil de um auditor interno como um profissional capaz de mostrar admiráveis predicados no papel estratégico de transmitir informações. Entre as inúmeras revelações desvendadas pela Lava Jato, umas das mais importantes – e quase não abordada pela mídia – é o binômio falta de integração e redundância nas ações dos organismos de controle e fiscalização em atuação no Brasil.
Há um imenso paradoxo entre os maciços investimentos realizados nas últimas duas décadas, em controles e regulações para evitar fraudes, com a enxurrada de barbaridades reveladas pela maior investigação de corrupção já realizada na historia mundial. A conta não fecha, mas há explicações. Se tivesse que definir a complexa situação de fragilidade que vivemos, de um modo simples, seria justo dizer que: temos muitos organismos não falando a mesma língua e com lampejos perigosos de atuarem ao redor de fogueiras de vaidade.
Há um emaranhado de infelizes atropelamentos burocráticos, aliado a absurdos retrabalhos que resultam na ineficácia de diversos sistemas de fiscalização e controle, gerando custos além do necessário. Qualquer grande empresa está sujeita a avaliação de inúmeros órgãos de revisão, sendo que se for estatal, a checagem quase dobra. Transações, processos, compras e vendas, quase tudo, em tese, passa por gestores da área, pelo controle interno, área de riscos, compliance e pela própria auditoria interna, que atua testando o que foi fiscalizado anteriormente, além de fazer uma avaliação abrangente de toda a empresa. Ela deve interagir com todos esses organismos citados, inclusive pelo comitê de ética e pela ouvidoria.
Entram agora no time de combatentes contra desvios de condutas, os organismos externos como: auditoria externa, órgãos reguladores e as controladorias municipal, estadual e federal, representadas pela CGU (no âmbito federal) e por tribunais dos municípios (TCM), dos estados (TCE) e da federação (TCU). Há ainda o Ministério Público, a Polícia Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), entre diversos outros. Boa parte dessas instituições tem a missão de prevenir e coibir à corrupção.
Com todo esse aparato para combater irregularidades, parece que vivemos em um cenário seguro, só que não. No país onde o termo miscelânea é quase um fator cultural, não se torna surpresa perceber que falta comunicação e integração entre cada poder e dificulta o efetivo combate às irregularidades. Os atributos com a definição de quem é responsável por determinada ação precisam ser mais claros e objetivos. É comum escutarmos de especialistas em segurança que se não houver intercâmbio de inteligência entre as polícias civil, militar e federal, o crime continuará vencendo a guerra. Nas batalhas pela ética corporativa, a analogia não pode ser diferente.
Em meio a tantos coadjuvantes envolvidos nos processos de análise e investigação surgem brechas que são usadas estrategicamente por fraudadores. Apesar da competência técnica dos órgãos fiscalizadores,
a falta de comunicação cria uma colcha de retalhos, repleta de falhas que retratam um sistema de controle amplo, mas incapaz de dar o resultado que a sociedade espera.
O excesso de burocracia também surge como um dos culpados pela fraqueza dos sistemas de controles de riscos. Enquanto áreas ficam travadas, outras se aproveitam do vácuo deixado por atuações incoerentes para cometer os mais criativos e danosos atos ilícitos, desde fraudar licitações até maquiar resultados e balanços.
O retrabalho é tônica comum em nossa sociedade, de fortes raízes culturais. A competitividade e agilidade em dar respostas positivas em operações, se tornam, algumas vezes, utopias como o que ocorrem, por exemplo com as celebres tramitações processuais no judiciários de nosso país. Temos que ter o cuidado e evitar que os organismos de controle se esbarrem em processos de avaliações idênticos, quando comumente ocorrem disputas de ‘egos’ a fim de ser identificado os responsáveis pelas ações.
Enquanto órgãos de controle interno ou externo realizam auditoria em uma empresa, sem que haja comunicação do escopo de trabalho, processos e procedimentos importantes podem ficar sem fiscalização. Nesse limbo, o terreno vazio cria margem para oportunidades de desvios de conduta. Em um jogo equivocado, quem perde, claro, é a sociedade que já não aguenta mais tanta ineficácia.
Após a Lava Jato os órgãos fiscalizadores deverão rever a forma de atuar, em busca de uma fórmula que evite sacrificar as áreas produtivas, com excesso de pedidos redundantes e retrabalho. Se não houver um projeto macro e coeso de comunicação, com treinamento adequado, com uso de tecnologia e integração entre esses órgãos de controle, a ducha de limpeza da Lava Jato terá apenas retirado um pouco da sujeira do caos ético que atinge o país. Temos que clamar por auditorias integradas, para que sejam efetivas e que não sejam vistas apenas como geradoras de custos para as empresas, incapazes de evitar graves enfermidades concebidas por fraudes corporativas.