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A História que Não Te Contaram

A história da inteligência artificial começa em 1943, mas a verdade é que ali ninguém fazia ideia do que estava criando. Chamaram de conexionismo para parecer sério, mas era só uma fagulha teimosa, uma intuição de que talvez fosse possível ensinar uma máquina a pensar. Hoje a gente olha para isso e ri, mas só porque esqueceu como o início sempre parece pequeno demais para o tamanho do impacto.
Em 1956, Dartmouth reuniu meia dúzia de cabeças brilhantes querendo fabricar uma mente artificial. Chamaram de máquina pensante com uma confiança quase inocente. A humanidade adora nomear coisas antes de entendê-las.
Um ano depois, Herbert Simon crava que a IA venceria humanos no xadrez em dez anos. Errou o timing, acertou o destino. Porque 1997 não foi a vitória do Deep Blue, foi a derrota da nossa vaidade. E a vaidade sempre perde antes do cérebro.
Entre essas datas vem o primeiro inverno da IA em 1971… e o segundo inverno em 1990… períodos em que a inteligência artificial virou assunto proibido, ridicularizado, engavetado. É bonito ver hoje todo mundo bancando visionário, mas poucos lembram que já houve um tempo em que falar de IA era quase sinal de loucura. Gosto dessa parte da história… mostra que até a tecnologia passa por humilhação antes de ganhar palco.
No meio disso, 1971 também traz o Intel 4004. Um microprocessador minúsculo. Simples. Um grão de futuro escondido dentro do metal. Porque é sempre assim… o que revoluciona chega disfarçado de detalhe técnico.
Em 2003, o GoogleX reconhece gatos em vídeos. Parece irrelevante, mas ali estava a semente da visão computacional que hoje reconhece sua cara, sua emoção, sua intenção, seu comportamento. O deslize começa sempre pelo miúdo. O salto vem depois.
Daí chegamos em 2021. GPT-3. A máquina que aprende mais rápido do que a velocidade com que a maioria das pessoas aceita aprender. A IA já não atravessa só empresas… atravessa pessoas, carreiras, identidades, agendas, modelos mentais. E faz isso com uma naturalidade irritante.
Só que a parte que mais me pegou é a que eu vi no WebSummit em Lisboa esse ano.
E quando eu fecho essa linha do tempo da IA, não penso no futuro. Penso no WebSummit, porque ali o presente ficou exposto sem maquiagem. Tim Berners Lee, sentado no palco central, não falou sobre profecias, falou sobre devolver os dados às pessoas, um retorno à promessa original do web, aquela que ele mesmo construiu. John Bruce completou dizendo que o Solid é mais que um protocolo… é uma tentativa de curar a internet como se cura uma ferida antiga.
Ben Goertzel entrou em outra frequência. Ele não vende mania de grandeza, ele fala de AGI com a calma de quem já viveu o tema por décadas. Disse que estes não são tempos de talvez, são tempos de tempestade. E que construir inteligência é mais sobre entender humanos do que ensinar máquinas. Seu sotaque na fala deixou claro algo simples… estamos criando outras espécies cognitivas, quer gostemos ou não.
Armin van Buuren abriu o coração no palco para admitir sete anos agradando demais. Uma confissão elegante sobre como até os artistas digitais se perdem no excesso de expectativa. É quase irônico, porque o mundo que ele descreve é o mesmo que o web vive… uma overdose de performance.
Sara subiu ao palco para falar sobre o nosso relacionamento com a IA. Não como metáfora barata, mas como um vínculo real, íntimo, diário. O mundo já não pergunta se você usa IA. Pergunta como você está usando, e o que isso está fazendo com a sua identidade.
Aloe Blacc e Kaivan falaram sobre criatividade e tecnologia com uma leveza que desmonta resistência. A pergunta deles era simples… o que ainda é humano quando tudo pode ser gerado. E a resposta ninguém deu, porque talvez a graça esteja justamente na dúvida.
Philip Rathle da Neo4j trouxe um ponto que quase passou despercebido… que a qualidade de qualquer agente de IA nasce da qualidade das relações entre os dados, e não dos dados isolados. Não é quantidade, é coerência. É quase filosofia aplicada.
Jan Goetz da IQM não pediu hype. Ele explicou hardware quântico com uma sobriedade que falta no mercado. Disse que o futuro não é velocidade, é precisão. Não é espetáculo, é engenharia.
E, lá atrás, a figura de Edward Snowden ecoava. Eu ouvi aquele homem em Lisboa anos atrás, cada sílaba com o peso de quem viu a máquina de dentro. E agora, ao ver todas essas cabeças falando de IA, percebi que a segurança que Snowden gritava continua sendo o ponto cego da maioria.
Não é o futuro da IA que me chama atenção. É a pluralidade do presente. Um presente onde cientistas, artistas, engenheiros, filósofos e gente comum falam da mesma força com línguas diferentes. É o presente que diz tudo. O futuro ninguém prevê. E sinceramente… nem precisa.
O que já está acontecendo é vasto o suficiente.

Marco Marcelino

Informação valiosa, 
no tempo certo

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