Estou em Miami, acompanhando de perto, o “Konnections Miami 2025”, um dos eventos mais relevantes para o setor de moda no mundo. Empresários, executivos e grandes marcas se reúnem aqui para debater o futuro do mercado. Em meio a temas como inovação, sustentabilidade e novas tecnologias, um assunto se impõe de maneira quase urgente: lucro.
E não estamos falando apenas de faturar mais. O debate é sobre como transformar faturamento em lucro real, algo que, paradoxalmente, tem se tornado cada vez mais difícil no nosso setor.
Em uma das apresentações mais impactantes que vi hoje, a Kornit Digital expôs um dado que resume bem o problema: de cada produto vendido, grande parte do dinheiro que deveria virar margem acaba evaporando em perdas operacionais, remarcações, liquidações, estoque encalhado.
É um choque de realidade.
E, olhando para o Brasil, o cenário não é muito diferente. Somos o quarto maior mercado de moda do mundo em volume de peças, movimentamos mais de R$ 230 bilhões por ano, e empregamos mais de 1,5 milhão de pessoas diretamente. Ainda assim, convivemos com margens comprimidas, excesso de estoque e alta dependência de liquidações para girar o caixa.
O grande aprendizado que Miami nos traz é que não basta cortar custos de produção. Focar só em material, hardware ou transporte é atacar a superfície do problema. O verdadeiro desafio e a maior oportunidade, está em revolucionar a operação.
A nova lógica é clara: não é sobre quem lança mais rápido, é sobre quem consegue vender certo. Constância vence velocidade.
Aqui, os empresários mais bem-sucedidos repetem uma máxima: “desacelere para acelerar com estratégia”. Entender profundamente o comportamento do consumidor, ajustar o sortimento de forma dinâmica, evitar desperdícios e ter domínio sobre o ciclo de vida do produto são os novos superpoderes.
Ganhar dinheiro na moda não é sorte, é técnica. E técnica envolve estratégia, método e execução.
Dominar o processo de venda é tão importante quanto criar uma boa coleção.
Outra lição forte que ressoa nos corredores do evento: não existe fórmula mágica. Quem vende facilidade está mentindo. O crescimento real é fruto de disciplina, aprendizado contínuo e aplicação prática.
Aliás, não é a quantidade de novos cursos que vai mudar o jogo; é a capacidade de executar o básico muito bem. Quem domina o simples constrói negócios sólidos.
E, talvez, o recado mais provocativo de todos: não é o produto que gera lucro, é a oferta.
O mercado não recompensa quem cria o melhor produto, mas quem sabe apresentar e vender soluções reais para os desejos e problemas do consumidor. Copywriting, storytelling, experiência de compra… tudo isso passa a ser parte essencial do processo de venda.
Aqui em Miami, a atmosfera é clara: o futuro do varejo de moda não pertence a quem apenas produz mais, mas a quem entrega melhor. Quem conecta marca, cliente e oferta de forma cirúrgica.
Destravar o lucro não é um ato isolado. É uma orquestração diária entre estratégia, execução e conexão real com o consumidor.
Esse é o novo jogo da moda. E ele está apenas começando.