O varejo físico está passando por uma revolução silenciosa. Até 2030, lojas e shoppings deixarão de ser meros pontos de venda para se tornarem espaços multifuncionais de imersão, entretenimento e conexão emocional. A exemplo do Dubai Mall — que integra aquários, pistas de patinação e cascatas —, os centros comerciais brasileiros estão se reinventando para oferecer experiências que transcendem a transação comercial, priorizando o lazer, a interatividade e a criação de memórias duradouras.
Do transacional ao experiencial: a nova função das lojas físicas
A obsolescência do modelo tradicional de varejo é evidente. Hoje, 73% dos consumidores globais valorizam marcas que oferecem práticas sustentáveis e experiências significativas, segundo a Nielsen. No Brasil, shoppings já registram que 31% dos visitantes frequentam esses espaços prioritariamente para lazer, e 21% para alimentação, superando o objetivo de compras tradicionais.
Exemplos práticos:
Sephora e Puma utilizam espelhos inteligentes e realidade aumentada para permitir que clientes testem produtos virtualmente, combinando tecnologia e interação humana.
Shopping Centers brasileiros estão integrando restaurantes temáticos, oficinas de DIY (faça você mesmo) e eventos culturais, seguindo a tendência global de “funflation” — pela qual a diversão se torna um antídoto contra a inflação de preços.
Tecnologia como alavanca de imersão
A omnicalidade — integração perfeita entre canais físicos e digitais — é essencial. Ferramentas como realidade aumentada (AR), inteligência artificial (IA) e sensores conectados estão transformando lojas em ambientes dinâmicos:
Espaços adaptativos: Lojas físicas usam IA para ajustar vitrines e layouts conforme o perfil demográfico dos clientes presentes.
Realidade Virtual (VR) no imobiliário: Empresas como a IKEA já permitem que clientes visualizem móveis em 3D em seus lares, reduzindo devoluções em até 25%.
No Brasil, a Abrasce destaca que shoppings estão investindo em tecnologias como pagamentos sem contato e integração com e-commerce, onde vendedores físicos atendem também clientes online, criando um ecossistema unificado.
Sustentabilidade e comunidade: pilares do novo varejo
A geração Z impulsiona a demanda por práticas sustentáveis, com 74% priorizando marcas alinhadas a causas ambientais. Lojas físicas estão respondendo com:
• Espaços ecoeficientes: Uso de materiais reciclados e energia renovável.
• Eventos com propósito: Oficinas de upcycling (reciclagem criativa) e feiras de troca, como as promovidas por redes de moda sustentável.
Além disso, a construção de comunidades em torno das marcas ganha força. Lojas da Banana Republic no Brasil realizam workshops de estilo, enquanto redes de luxo promovem jantares exclusivos para clientes fiéis, transformando espaços comerciais em pontos de convivência.
O caso brasileiro: adaptação a uma cultura de contato presencial
No Brasil, onde a cultura do contato humano ainda é forte, o varejo físico tem vantagem competitiva. Strip malls — centros comerciais ao ar livre com arquitetura acessível — estão em expansão, especialmente após a pandemia, por oferecerem segurança e conveniência.
Estratégias locais de sucesso:
• Moda e luxo: Marcas como Reserva e Farm investem em lojas-conceito com cafés integrados e áreas de descanso, onde clientes podem participar de palestras ou sessões de autógrafos.
• Varejo alimentício: Supermercados como Pão de Açúcar testam smart stores com sensores que identificam produtos no carrinho e permitem pagamento automático, reduzindo filas.
Desafios e oportunidades para 2030
Apesar do otimismo, a transição exige superar obstáculos:
• Custos de implementação: Tecnologias como AR e IoT exigem investimento inicial alto, mas parcerias com startups podem reduzir despesas.
• Privacidade de dados: A coleta de informações para personalização precisa balancear utilidade e ética, especialmente com a regulação crescente.
Tendências emergentes:
• Lojas sem funcionários: Modelos de autoatendimento com reconhecimento facial e carrinhos inteligentes.
• Experiências gamificadas: Promoções que recompensam clientes por interagir com elementos digitais nas lojas.
Conclusão: o varejo como palco de emoções
Até 2030, o sucesso do varejo físico dependerá da capacidade de transformar transações em experiências. Como afirma Glauco Humai, presidente da Abrasce, “o consumidor está no centro, e as marcas precisam encantá-lo com customização e sensorialidade”. Para empresários brasileiros, isso significa adotar tecnologias imersivas, priorizar sustentabilidade e, acima de tudo, entender que vender não é sobre produtos, mas sobre criar histórias que os clientes queiram reviver.