Existe uma cena curiosa acontecendo dentro das empresas. Nunca tivemos tanto dado. Nunca tivemos tanta tecnologia. Nunca tivemos tantas respostas. E, ainda assim, nunca vimos tanta dificuldade para formular boas perguntas.
Na entrevista desta edição, Mari Pinudo, country manager da Adobe Brasil, toca em um ponto que considero central para os próximos anos. Antes de discutir inteligência artificial, automação ou qualquer nova sigla que o mercado venha a criar, existe uma questão mais importante… O que estamos tentando resolver?
Parece simples. Mas basta olhar ao redor. Empresas compram plataformas sem compreender seus clientes. Contratam inteligência artificial antes de definir uma estratégia. Acumulam dashboards como quem coleciona mapas sem saber para onde deseja viajar. A tecnologia evoluiu. A clareza nem sempre acompanhou. Ao longo dos últimos anos, analisando mercados, consumidores e milhões de registros, percebi algo que contraria o discurso dominante. O problema raramente é a falta de informação. O problema é a incapacidade de transformar informação em entendimento. Dados mostram o que aconteceu.
Entendimento ajuda a prever o que acontecerá. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas. Talvez por isso eu tenha gostado quando Mari falou sobre orquestração. Porque os mercados não se movem por planilhas. Pessoas se movem por desejos, medos, expectativas e necessidades.
Os números apenas deixam rastros. Cabe a nós interpretar o caminho. O comportamento de compra, as mudanças regulatórias, os movimentos da concorrência, as conversas nas redes sociais, os hábitos de consumo e os sinais do mercado parecem peças isoladas. Mas, quando conectados, revelam algo valioso: intenção.
E quem entende a intenção antes dos outros costuma chegar primeiro. Durante décadas disputamos informação. Agora disputamos interpretação. A inteligência artificial certamente mudará a forma como trabalhamos. Mas continuará existindo uma vantagem impossível de automatizar completamente.
A capacidade humana de observar padrões, compreender pessoas e fazer as perguntas certas. No fim, os algoritmos podem até indicar o caminho. Mas ainda são as pessoas que decidem para onde vale a pena ir.