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Planejamento estratégico e gestão podem elevar ONGs a outro patamar

Qualquer negócio começa com a definição de objetivos, a elaboração de um planejamento estratégico para sua execução eficiente, que deve incluir recursos financeiros, técnicos, humanos e materiais. E com as Organizações da Sociedade Civil (OSC) no Brasil não é diferente.

De acordo com o Ipea (2022), existem no Brasil mais de 815 mil OSCs distribuídas em todos os municípios do país, que empregam formalmente 3 milhões de pessoas e receberam em torno de R$ 118 bilhões de recursos federais entre 2010 e 2018 para execução de projetos voltados aos mais diversos temas, territórios e públicos. Quase 50% estão localizadas na região sudeste e cerca de 70% surgiram entre 2001 e 2010. Atuam majoritariamente no desenvolvimento e defesa de direitos e interesses, cultura e recreação. Entretanto, segundo o relatório “Dinâmicas do Terceiro Setor no Brasil: Trajetórias de criação e Fechamento de Organizações da Sociedade Civil (OSCS) de 1901 a 2020”, do mesmo órgão e ano, 3,2% dessas organizações encerraram suas atividades em 2020. Dentre os fatores causadores estão a queda no volume de financiamentos internacionais junto ao setor; exigências burocrático-administrativas para a captação de recursos e execução de projetos; a dificuldade de alinhamento com a atual legislação (Lei 13.019/2014 – Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil) e dificuldades com o planejamento e a gestão do negócio. Por exemplo, no que diz respeito à situação cadastral das organizações na Receita Federal, quase 73% das baixas de CNPJ ao longo do período foram feitas pela própria Receita, conforme a aplicação de normas internas e não como uma ação da própria organização de dar baixa em seu registro junto ao órgão. Dessa forma, é possível observar que várias OSCs se tornam inativas também pela falta de gestão administrativa e tributária competente.

O que acontece normalmente é que essas organizações de impacto social são criadas por indivíduos que têm o principal objetivo de atender uma demanda específica da sociedade, incapaz de ser sanada pelo poder público. E, geralmente, seus fundadores realizam o sonho de ajudar outras pessoas, mas nem sempre possuem o preparo técnico para tocar o negócio – são movidos pela paixão.

Entretanto, o fato é que, mesmo que sejam negócios de cunho social, sem objetivo de gerar lucro, as Organizações da Sociedade Civil precisam ser o mais eficiente possível de forma a usar seus recursos e transformar o que seria o “lucro” em impacto positivo para seu público. Além disso, a possibilidade de escalar o negócio e ampliar os benefícios por ele gerados necessita muito mais do que os tradicionais apoios e patrocínios. Nesse sentido, a captação de novos investimentos exige não somente qualificação do time para criar uma visão estratégica de longo prazo nos gestores e orientar a implementação da estratégia que vai fazer o negócio cumprir a sua missão perante a sociedade. Sobretudo, é fundamental elaborar um minucioso planejamento de desenvolvimento do negócio, com missão, visão, objetivos, estratégias e metas bem definidos. Assim, capacitar tecnicamente os profissionais, de acordo com as cadeiras ocupadas e as funções necessárias; preparar o time para entender a importância de estabelecer objetivos, indicadores de desempenho e métricas realistas; mapear e otimizar processos rotineiros e viabilizar caminhos para a captação de recursos deve ser parte do processo de criação e de gestão de qualquer negócio desse tipo.

O planejamento estratégico é o exercício de definir onde a empresa estará no futuro. Tipicamente, é uma visão de médio-longo prazo que envolve uma série de definições conceituais relativas a: aonde queremos chegar, o que precisamos para chegar lá e como vamos viabilizar esse caminho do ponto de vista de competências, recursos (pessoais, tecnológicos, financeiros) e estruturas de trabalho. Por isso, todo planejamento estratégico deve ser composto de objetivos numéricos e objetivos qualitativos que, conjuntamente, denominam-se Objetivos Estratégicos e que passam a ser a base para as diretrizes de execução e os modelos de acompanhamento da estratégia. Além disso, tanto a elaboração quanto a execução da estratégia de negócios devem obedecer ao momento da organização, seu ciclo de vida e disponibilidade de recursos financeiros, técnicos, humanos e materiais.

Em 15 anos de existência e mais de 400 mil pessoas impactadas, a Organização Não Governamental (ONG) Olhar de Bia tem como sua missão apresentar ferramentas e oportunidades para crianças e jovens construírem seus sonhos por meio da educação. Após muitas dificuldades na gestão do negócio, sem saber se estava no caminho certo e cheia de questionamentos, sua fundadora buscou a parceria com uma empresa de consultoria que ajuda os parceiros a extraírem o máximo do seu potencial. A partir daí, a ONG amadureceu o seu olhar empresarial com maior planejamento, capacitação do time, criação de novas cadeiras, autonomia e inovação. Além de ampliar a sua capacidade de estabelecer parcerias, viabilizar captação de recursos. Um dos resultados dessa parceria foi a criação do programa Alicerce, que ajuda a despertar vocações profissionais. Atualmente, o programa recebe jovens de cinco estados brasileiros e cada aluno tem um mentor, chamado de “anjo”, que o acompanha durante todo o treinamento. Centenas de jovens já se iniciaram numa atividade profissional a partir da formação que obtiveram no Alicerce.

Mais do que a habilidade para criar soluções e ajudar o próximo, gestores das Organizações da Sociedade Civil precisam contar com profissionais qualificados, capazes de planejar o desenvolvimento do negócio e implementar uma gestão eficiente, executando as estratégias traçadas em prol dos objetivos definidos, com maior qualificação, organização e recursos. E o momento não poderia ser mais propício do que agora. Como amplamente discutido no recente Fórum Mundial de Davos (2022), a necessidade de implementar a Agenda ESG (Environmental, Social, Governance ou Ambiente, Social e Governança, em português) tem levado várias empresas de diversos setores em todo o mundo a investir em parcerias com organizações de impacto socioambiental, seja por meio de investimentos em tecnologia, pessoas e materiais.

Julian Tonioli

Partner at Auddas

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