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O apetite por pertencimento

Nem sempre é o sabor que fideliza. Às vezes, é o ritual. O anúncio do novo cardápio no domingo à noite. A ansiedade coletiva por algo efêmero. O vídeo no TikTok que revela não apenas cookies, mas pertencimento. Jason e Sawyer entenderam cedo que o que move o consumo hoje não é a lógica da necessidade, mas o desejo de participar de algo maior, mesmo que esse algo venha embalado em gotas de chocolate.

Por Sandra Chayo··3 min de leitura
O apetite por pertencimento

Nem sempre é o sabor que fideliza. Às vezes, é o ritual. O anúncio do novo cardápio no domingo à noite. A ansiedade coletiva por algo efêmero. O vídeo no TikTok que revela não apenas cookies, mas pertencimento. Jason e Sawyer entenderam cedo que o que move o consumo hoje não é a lógica da necessidade, mas o desejo de participar de algo maior, mesmo que esse algo venha embalado em gotas de chocolate.

A Crumbl, marca criada pelos dois empreendedores americanos, transformou cookies em cultura pop. De 21 para mais de 300 lojas em menos de dois anos. Avaliada em mais de 1 bilhão de dólares, a empresa não cresceu apenas vendendo doces: cresceu vendendo expectativa. Criando uma coreografia digital entre a marca e sua comunidade. Um novo sabor por semana. Um novo motivo para voltar. Uma nova chance de pertencer.

Na era das redes, a vitrine não é mais um lugar físico. É uma narrativa contínua, com episódios curtos, envolventes e compartilháveis. O algoritmo, que antes era um meio de entrega, virou o palco onde as marcas dançam para serem notadas. Segundo a McKinsey, marcas que constroem comunidades ativas nas redes sociais podem ter até 3 vezes mais recorrência de compra do que marcas que apenas anunciam. Isso porque, quando o consumidor sente que faz parte da história, ele não apenas compra. Ele defende. Indica. Volta. E posta.

A rotação semanal de cookies da Crumbl não é apenas uma estratégia de produto. É uma promessa simbólica. Uma reinvenção ritualística da escassez. Algo que o marketing moderno vem tentando decifrar desde que o tempo virou um ativo. As pessoas não querem só consumir. Querem ser parte da cena. E as marcas que entendem isso não vendem mais produtos, vendem experiências de pertencimento.

Na contramão dos manuais antigos de branding, hoje não é a consistência visual que constrói o amor pela marca, mas a frequência emocional com que ela aparece na vida das pessoas. Um post no Instagram pode não parecer nada. Mas, repetido por 52 domingos seguidos, vira um hábito. Vira cultura. Vira vício. E isso, no varejo, é ouro.

A WGSN já apontava em seus relatórios de comportamento que a “relevância ritual” é o novo luxo invisível. Aquilo que a marca entrega além do tangível. Aquilo que nos conecta a outras pessoas por meio de um gesto em comum, como apertar o play num Reels, comentar um sabor favorito ou correr para garantir o cookie da semana. O que antes era apenas doce, agora é um sinal de pertencimento. Uma bandeira digital.

Marcas que crescem rápido hoje não são as que têm o melhor produto, mas as que constroem melhores histórias. As que sabem que uma comunidade engajada vale mais que um milhão de impressões. Que viralizar é só a superfície de algo muito mais profundo: o desejo de ser visto, de ser incluído, de fazer parte.

Talvez a maior disrupção do varejo moderno não tenha sido tecnológica, mas simbólica. Uma troca silenciosa entre status e conexão. Entre exclusividade e recorrência. Entre escassez de produto e abundância de narrativa.

No fim das contas, o que compramos não é o cookie. É a sensação de fazer parte de algo que acontece toda semana. O sabor muda, mas o ritual permanece. E isso, hoje, vale mais que qualquer anúncio em horário nobre.

A pergunta que fica é: quantas marcas você realmente sente que fazem parte da sua vida, e quantas apenas aparecem na sua timeline?

Autor

Sandra Chayo

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