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A aula de varejo que coube em uma tarde

Uma conversa entre empreendedores revela seis leis práticas sobre margem, distribuição, caixa, posicionamento e velocidade no varejo.

Por Elton Barbosa··4 min de leitura
A aula de varejo que coube em uma tarde

Eu vivo de encontros. Os bons viram cafezinho, os ótimos viram negócio, e os raros viram coluna. O desta edição virou coluna. Sentei à mesma mesa dois fundadores que, à primeira vista, não tinham nada a ver um com o outro. Guilherme, do Azeite Lov, uma marca jovem que acaba de desembarcar no Brasil com ambição de gigante. E Marcelo, do Café Santa Mônica, casa com mais de um século de varejo e a disposição de quem nunca parou de aprender. Um trouxe para a conversa a velocidade de quem está descobrindo o mercado agora. O outro trouxe a profundidade de quem já atravessou tudo o que esse mercado pode fazer com você. Entre um azeite e um café, os dois trocaram o que nenhum curso entrega: experiência de quem está na arena, com gôndola de verdade, ciclo de caixa de verdade e decisão de verdade. Em poucas horas, a conversa produziu seis leis do varejo que valem para qualquer negócio de consumo. Eu fiz minha função preferida, a de apresentador. E saí dali como aluno. O que vem a seguir é o que aprendi.

A primeira descoberta veio do lado jovem da mesa. Guilherme passou anos colocando azeite na gôndola e não vendendo nada. O cliente comprava uma vez e nunca mais. O diagnóstico que virou o jogo dele foi simples e brutal: só o sell-in não funciona. A venda que importa é a que acontece na ponta, com ação, demonstração, degustação. E a técnica que sustenta isso tem uma regra que ele repetiu de memória: você nunca vende pelo seu menor preço. Deixa margem reservada para trabalhar o ponto de venda, porque o amarelinho de desconto cria percepção de vantagem mesmo quando ela não existe exatamente. Na prática, a margem que sobra no fim do mês é a que sobrou de sobra. A que constrói marca é a que foi gasta de propósito, na frente do cliente.

Se a venda na ponta precisa de munição, o segundo aprendizado explica por que ela acaba antes da hora. Marcelo detalhou a mecânica que todo fornecedor assina e poucos dimensionam. O contrato com o varejista carrega percentuais fixos, logística, datas comemorativas, ativação comercial. A nota sai de cem, o pagamento vem de noventa. Isso é normal e previsível. O perigo está na sequência: cada cliente com sua ação, cada campanha com seu desconto, e a margem vai sendo tomada fatia por fatia. A defesa é disciplinar. Tabela única, controlada, na sua mão. Quem negocia preço solto, cliente a cliente, negocia a própria sobrevivência.

A tentação seguinte chega disfarçada de demanda fácil. No mercado livre, os sellers usam marcas conhecidas para gerar tráfego e praticam margem mínima para isso. Parece venda, é exposição de marca. Só que dois reais de diferença num anúncio queimam o posicionamento de todos os outros canais. A regra que ficou da conversa: distribuidor e seller só entram jogando o seu jogo, com piso de preço definido. No curto prazo parece crescimento. No reconhecimento, custa a marca inteira.

Do outro lado da mesa, a casa centenária acrescentou a lição que só quem já viveu o ciclo inteiro consegue dar. No importado, você paga na saída do pedido e no embarque, e recebe do varejista só depois da entrega, com prazo. Entre pagar e receber existem noventa dias, no mínimo. Crescer, nesse cenário, é acelerar o próprio desequilíbrio: quanto mais você vende, mais caixa você precisa antes de faturar. E o custo de não ter estoque pronto é duplo. A venda se perde e o cliente compra do concorrente na hora. Ruptura não é atraso, é transferência de mercado.

No meio da tarde, Guilherme desmontou uma matemática que o consumidor nunca vê. A qualidade de um azeite superior se apoia em dois fatores, colheita e origem, e quase nenhuma regulamentação obriga o rótulo a contá-los com honestidade. O azeite engarrafado num país pode ter vindo de outro inteiro. O posicionamento dele é exatamente o oposto desse jogo: qualidade equivalente à das marcas premium por uma fração do preço, sustentada por escala de origem, e transparência radical sobre o que está dentro da garrafa. A lição atravessa categorias: quando o setor inteiro esconde, quem explica ganha a gôndola dos que decidem informados.

A última lei veio de Marcelo, e é a que mais aperta. A janela da inovação existe, mas fecha.

Cada ano que passa, o mercado vai se apropriando da sua qualidade, da sua embalagem, do seu posicionamento. Ter uma inovação e crescer devagar é financiar a cópia. E encurtar essa curva exige o que quase ninguém quer ouvir: investir em marca, formar time, buscar quem já tem relacionamento com o comprador. O Brasil é grande demais para ser aberto de dentro de um escritório.

Fecho com a observação que resume a tarde. Os dois negócios têm idades separadas por quase um século e, mesmo assim, debateram as mesmas seis leis sem discordar de nenhuma. Produto diferente, estágio diferente, gramática igual.

O varejo não perdoa quem aprende só na teoria.

Colunista

Elton Barbosa

Colunista · Empresário Digital

Colunista da revista Empresário Digital.

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